"Amei-o como nunca amei ninguém. Por ele dispus-me a viver uma verdadeira vida samburu. Com isso fiquei muitas vezes doente, mas continuei lá porque o amava. Muita coisa mudou desde que Napirai nasceu. Um dia ele disse-me que aquela criança não era filha dele. A partir daí o meu amor quebrou. Os dias passaram com altos e baixos e muitas vezes ele me tratou mal." 
Acabei de ler o livro que comprei ontem: "Casei com um Massai". É um relato na primeira pessoa de uma tão insólita como forte história de amor, com um final abrupto. Mais do que isso, é o relato da adaptação de uma europeia culta e independente ao estilo de vida semi-nómada de um guerreiro analfabeto e fiel às tradições em plena África. Uma história antropológica também.
Corinne, uma empresária suíça, vai de férias ao Quénia com o namorado, quando avista um guerreiro Massai por quem se apaixona perdidamente. Volta à Suíça, rifa o namorado, vende a casa e os carros, trespassa o negócio e parte de novo para África para tentar encontrá-lo. Demora três meses a consegui-lo.
Após vários encontros e desencontros, e diligências difíceis devido à burocracia e corrupção, acabam por casar-se legalmente e de forma tradicional. Corinne vai viver com a tribo de Lketinga, numa «manyatta», uma cabana feita de madeira e de excrementos de vaca, onde não há nada de nada daquilo a que um europeu está habituado. Por amor, adaptou-se a tudo, mas uma alimentação baseada em carne de cabra, chá e leite misturado com sangue levam-na contrair malária e a hepatite, fruto da má nutrição.
Para ganhar dinheiro e ajudar a melhorar a qualidade de vida da agora sua comunidade, Corinne comprou uma carrinha e abriu uma pequena mercearia. Contudo, os constantes problemas mecânicos, os assaltos, as viagens complicadas e a corrupção desiludiram-na profundamente e depauperaram a sua conta bancária depositada na sua terra natal.
Uma filha selou o amor do dois, mas os hábitos sociais profundamente diferentes e, sobretudo, os ciúmes obsessivos de Lketinga obrigaram Corinne a fugir para a Europa sensivelmente quatro anos depois do início desta aventura.

(Corinne e a filha actualmente)
Um livro que nos faz pensar no que fazemos e como nos adaptamos por amor e também nos limites que temos para conviver desta forma como uma pessoa tão diferente. Em suma, como é difícil ter uma vida a dois quando os conflitos entre culturas é tão flagrante.

