Já falei da Tutti neste blog (aqui e aqui) e prometi que vinha cá contar a história dela, caso tudo corresse bem.

Esta toutinegra-de-barrete-preto chegou cá a casa no dia 8 de Maio pela mão da Pinguim, depois de ter caído de uma nespereira uma série de vezes. Era posta no ninho e atirava-se para o chão novamente.
Sim, é um passarinho teimoso e apesar de ser muito pequerrucha achou que já estava grande para voar. Pois, mas não estava e os gatos chamavam-lhe um figo se a tivessem apanhado.
Quando falo da Tutti falo sempre no feminino porque o Luís Diniz, que tem larga experiência a observar aves, suspeita que ela seja uma fêmea. Por enquanto ela está com a roupa de juvenil e certeza absoluta não há…
Durante estes dias a sua alimentação foi variada: começou pelas papas próprias para aves bebés, misturada com papa insectívora, …
…água com mel para fortalecer, depois vieram as larvas de escaravelho compradas na loja do José Santos, a seguir as larvas do bicho da farinha (que são maiores e dão mais luta) que vieram directamente desta loja de Olhão pela mão do meu pai…
… e pelo meio finaram-se muitos mosquitos, moscas, aranhiços, pulgões e outros bicharocos que eu não sei nome.
Os mosquitos e moscas eram fáceis de arranjar (nem precisava de sair de casa porque isto de viver perto da “selva” tem as suas desvantagens), mas os restantes bicharocos a Tutti apanhava nos passeios quase diários à mata (era só mostrar-lhe os bichos e zás!).
Nos últimos dias, descobriu o pão, as uvas, os alperces e as meloas.
Tanta paparoca fez com ela engordasse 5 gramas neste período. Chegou com 12 e agora tem 17.
Depois de aprender a caçar para não morrer de fome, vieram as aulas de voo. O problema é que a Tutti era um bocado “asa de chumbo”. Voar cansa tantooooooooo! Eu soltava-a no meu túnel de voo (vulgo cozinha) e a mandriona preferia voltar para a gaiola para comer. Foi preciso muita paciência e a ajuda de outro passarinho para ela começar a voar como deve ser.
Ao fim destas quase três semanas, e evitando ao máximo o contacto com ela para que se tornasse autónoma e independente dos humanos, ela estava mais do que pronta para ser devolvida à Natureza. Hoje foi o dia escolhido para o dia L, de libertação.
A Tutti foi anilhada com uma bela anilha dourada (para, caso voltasse a esbarrar com ela a reconhecer) e a porta da gaiola foi aberta, na esperança que ela voasse em direcção à mata (como seria de esperar).
Só que… a Tutti não saía da gaiola. Foi preciso forçar para ela sair. Só que… a Tutti não saía da varanda. Saltinho para cá, saltinho para lá, ida até ao vasos para comer uns pulgões e… de volta à gaiola para comer mais umas “minhocas” e beber água.
Ao fim de algum tempo, e depois de a “assustar”, ela voou para os arbustos e pensámos que assim começaria um novo período na vida dela. Erro crasso. Cinco minutos depois ela voltou, só que enganou-se na varanda e aterrou na do vizinho. Com muito esforço, e uma soneca e muitos minutos depois (sim, ela adormeceu por lá…), a Tutti voou para os pinheiros. Para o ponto mais alto do pinheiro. Pensámos: “Missão cumprida, a Tutti conseguiu.”
Fiquei de lágrima nos olhos e a desejar-lhe boa sorte em silêncio (custa-me sempre muitooooooooo separar-me deles!!!). Esperei mais um bocado para ver a reacção dela. Parecia muito calma, apanhou logo uns insectos, começou a “esmifrar” as agulhas do pinheiro. Tudo parecia ok.
Voltámos para casa e… começámos a ouvir a Tutti a piar e a chamar por mim, como fazia de manhã quando queria comer. Ela piava e eu respondia com um assobio e assim estivemos mais de uma hora. Eu na varanda de casa, ela lá ao fundo num pinheiro (eu nem a via, só a ouvia).
Às tantas, ela voou dos pinheiros e voltou para os arbustos que ficam mesmo em frente de casa. Pareceu-me que tinha poisado no chão e tive medo que por ali ficasse e fosse apanhada por alguém ou um animal.
Fui lá abaixo ver e… ela voou em direcção a mim. Tentei assustá-la e nada! Ela não saiu mais de cima dos meus pés.
Resultado: está novamente cá em casa e, pelos vistos, vai ter de haver um segundo dia da libertação.
